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domingo, 30 de outubro de 2016

Minhas ressalvas com as Igrejas em Células

Quantos de nós cristãos ou não já foram convidados a ir na casa de um conhecido ou amigo, onde irá  ocorrer um culto cristão com mais ou menos duas ou três canções, uma palavra, normalmente a mesma pregada no último domingo na igreja e depois comes e bebes. Creio que todos já participaram deste ambiente,  no qual considero muito edificante e gostoso de participaar, pois aumenta a comunhão entre os irmãos. Gostaria que cada leitor que estiver lendo este texto não entenda que eu sou contra as células, pelo contrário acho ela um ambiente cristão acolhedor, todavia tenho algumas ressalvas ao observar sociologicamente as consequências macro  na igreja brasileira. 

O termo "célula", referência aos cultos nos lares, surgiu no final da década de 90 e começo dos anos 2000 por um movimento que veio como uma avalanche na igreja brasileira, chamado G12,  já escrevi uma matéria sobre os perigos do G12 para a igreja chamado a "Igreja judaizante de Gálatas e o G12", onde apontei as teologias pregadas no Brasil e o estrago que fez a nossa Igreja, todavia alguns pontos positivos ficaram como as "células". As mesmas reuniões cristãs nas casas, também não são um modelo de igreja apenas de nossa geração, isto ocorreu  na igreja primitiva, segundo o relato de Atos dos Apóstolos, onde os cristãos se reuniam  em comunhão nas suas residências com o fim de aprender mais de Cristo e driblar a perseguição do Império Romano. 

Hoje no Brasil, a ideia de "células" está muito mais ligado com o secularismo e com o pós modernismo, pois muitas pessoas que nunca entrariam em um templo evangélico por puro preconceito, podem apreender da Bíblia e quebrar seus paradigmas ao se relacionar na casa de amigos com outros cristãos. Pois então, e as ressalvas deste lindo trabalho nas igrejas?

Primeiramente gostaria de apontar que, com o desgaste do G12, foram criadas algumas ramificações de igrejas em células, em especial gostaria de citar duas, o G5 e o MDA. 

 O G5  que é um modelo que cria a cada cinco células um supervisor de célula - este foi implantado mais em igrejas históricas, não há tanta cobrança de multiplicação de células ao atingir o número de 12 pessoas e também não existe este "sopão amargo" teológico do G12. 

Outro movimento que surgiu foi  MDA - Modelo de discipulado apostólico, este movimento, tem muitas semelhanças com o G12, vamos dizer que é a versão mais "light", mas que ainda possuí severas críticas, a maioria das igrejas que aderem, são comunidades neopentecostais ou igrejas independentes (isto é não filiada a nenhuma denominação). A promessa de multiplicação é feita aos pastores assim como no G12, nos congressos os palestrantes são de igrejas "que deram certo", ou que "implantaram corretamente o sistema", eu sinceramente acho muito fácil de 10.000 igrejas que possuem o sistema ,umas 100 se tornaram mega igrejas fazerem este discurso   "arrebatador" sobre o movimento, até porque  muitas já eram igrejas grandes. Mas as minhas críticas são mais profundas. 

A troca do ensino sistemático da Bíblia por repetições de pregações dos cultos. 

As igrejas em células majoritariamente acabam com a escola bíblica dominical, isto cria um vácuo no ensino dos jovens e adolescentes e adultos que se convertem, pois eles não tem uma noção sistemática da Bíblia, do velho ao novo testamento, livro por livro, uma vez que as pregações de domingo são repetidas e convenhamos muitas pregações hoje nem usam a Bíblia, ou se usam, dificilmente os pastores trabalham com sequências das exposições, logo não é muito pedagógico para os membros de uma igreja, apreender esta semana sobre "a quarta trombeta do apocalipse", e na semana seguinte sobre um trecho do livro de Amós. No final o que percebe-se nos últimos 15 anos é um distanciamento dos fiéis da palavra de Deus. Em sua maioria não sabem quantos livros a Bíblia tem, não sabem a ordem cronologica das histórias e muitas vezes não estudaram dentro da igreja os evangelhos trecho a trecho da Bíblia, criando uma lacuna que pode levar muitas igrejas a heresias e sincretismos religiosos, uma vez que ignoram as escrituras. Não estou aqui dizendo que o modelo de escola bíblica dominical é o melhor, todavia me parece que a igreja em células não supre a falta de EBD a não ser que seja dado cursos de livros bíblicos em paralelo as células. 

A igreja que só pensa em sí
Inúmeras igrejas que tinham um compromisso missionário, sustentava e enviava missionários a campo, desapareceram, uma vez que na igreja em células, o que é falado é a ideia de centralizada no seu próprio crescimento, ela não é como a igreja de Antioquia em Atos, que pensava em ultrapassar as fronteiras da cidade e alcançar as nações, ela não doa mais para fora, não se preocupa mais com os seus irmãos perseguidos, não fala em missões. Ela torna-se uma igreja vaidosa que não pensa e mais nada que é de fora e muitas ainda neste processo se torna sectária, o máximo que ela faz é "orar" quando faz uma vez por ano. 

Vendendo crescimento e aumentando a vaidade na igreja
Muitas igrejas acabam pressionando tanto os seus fiéis a abrir uma célula ou a trazer pessoas, oferecendo até prêmios ou status que os fiéis entram em uma real concorrência pelo crescimento uns com os outros, levando a membresia a intrigas e divisões. O ensino para esta liderança de célula é precário, um curso de "formação de lideres" ou uma "escola de profetas" é tido como o suficiente para abrir uma célula....o ensino destas escolas normalmente é raso, pouco aprofundado, totalmente dependente do esboço esmiuçado do pastor. Não é apresentado nenhuma técnica de Estudo Bíblico Indutivo, ou então de solução de conflitos ou mesmo um estudo sistemático da Bíblia. Uma liderança mal formada com certeza pode causar problemas, muitas igrejas também não se preocupam em verificar o caráter do líder, se ele é novo na fé ou não...uma pena

A idolatria ao modelo 
As vezes observo as igrejas na rua, tem umas que colocam o nome da igreja e em baixo colocam "Visão em células - MDA", fico pensando como isso é digerido por uma pessoa não cristã..."será que eles estudam biologia na igreja - célula - MDA/RNA/DNA"...rs..brincadeiras a parte isso gera uma idolatria ao método e uma futura frustração aos pastores que implantam o sistema e não vêem nenhum "milagre de multiplicação" em suas congregações. Sinceramente penso que uma igreja que produz frutos é uma igreja baseada em um ensino correto das escrituras, que tenta se afastar das vaidades humanas e que possuí os frutos do Espirito Santo, amor, misericórdia, cuidado com os pobres e as viúvas, foco e sensibilidade cultural no lugar que ela está inserida, enfim isso é matéria para outro artigo.



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